“Distância Focal” revela os “pedacinhos do céu” de cada um, em mais de 400 fotografias

Alunos de Fotojornalismo do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT) decidiram avançar com um registo fotográfico diário dos seus dias em quarentena. O projecto, intitulado “Distância Focal” porque, “mesmo à distância”, pretendem “manter o foco”, materializa-se publicamente numa conta da rede social Instagram, estando disponível em https://www.instagram.com/distanciafocal2020/ .

Iniciado a 28 de Março, poucos dias depois do regresso forçado dos jovens a suas casas, por força do estado de emergência, tem obtido bastante aceitação por parte dos utilizadores do Instagram:
“Em menos de um mês conseguimos ultrapassar os mil seguidores, cifra bastante boa para um projecto que só agora vai ser divulgado à comunicação social” – revela Miguel Almeida, um dos estudantes que coordena o projecto, a par dos dois docentes que leccionam a unidade curricular.

Adesão que se nota também no número de fotografias publicadas, ultrapassando as quatro centenas.
“Tem sido aliciante participar neste projecto. Alguns dias depois do seu início, já com a página online, começámos a receber pedidos de colegas de outras disciplinas, também de funcionários e docentes do ISMT, para publicarmos fotos que nos enviavam. E decidimos alargá-lo então a toda a comunidade torguiana, sem esquecer os ex-alunos, colegas já licenciados” – detalha o jovem estudante, descrevendo outras virtualidades do “Distância Focal”:
“Um desafio muito grande, conseguirmos fazer boas fotos em ‘prisão domiciliária’, confinados ao espaço reduzido das nossas casas. No início não foi fácil, mas lá nos adaptámos e estamos satisfeitos com os resultados, o mesmo valendo para o retorno obtido através das centenas de ‘gostos’ e mensagens de incentivo que nos vão chegando. A maior parte dos meus colegas não voltou a sair de casa, eu e mais um ou dois somos excepção, daí haver algumas tomas feitas no exterior”.

Folheando o bojudo álbum de fotografias, salta à vista a variedade das fotos:
“Temos alunos de Braga a Alverca, da Guarda a Anadia, de Figueira do Castelo Rodrigo a São Pedro do Sul, a Mortágua, sem contar, obviamente, com os de Coimbra. Só esse facto é, desde logo, gerador de grande diversidade, seja nos temas, seja nos registos cromáticos, porque temos interiores mais sépia, mas também o branco da neve que cai em Pinhel, e muito, muito verde. Os jovens descobriram os seus jardins, as flores encantadoras a que não ligavam nenhuma, os quintais que eram, até agora, espaço exclusivo dos pais” – diz-nos Ricardo Almeida, fotojornalista profissional que assegura a docência de Fotojornalismo em parceria com outro colega.

Descoberta das adjacências das casas traçadas a verde, com os redutos privados dos lares a deixarem-se expor também, apesar de, como refere Ricardo Almeida, não ter sido tarefa fácil:
“No início confesso que sentimos grande dificuldade, percebemos e compreendemos que pais, irmãos e avós estranhassem a presença, não dos filhos, mas de repórteres fotográficos dentro de suas casas.
Mas tudo se superou rapidamente e hoje em dia são os próprios familiares a sugerirem o registo de alguns ‘bonecos’ aos filhos”.

Quem não ofereceu resistência nenhuma, bem pelo contrário, foram os animais de companhia, ao virarem estrelas do Instagram de um dia para o outro. A galeria fotográfica inclui cães de várias raças, os inevitáveis gatinhos, ainda peixes de aquário e uma série de passaricos que fazem companhia não muito perto, mantendo as regras do distanciamento social vigente.

“E há outra faceta muito importante neste projecto. O que eu noto é que os alunos estão a fazer História, através das fotografias que vão tirando. São registos do quotidiano, tomas que hoje podemos considerar banais, mas que, daqui a alguns anos, algumas décadas, serão vistos com outros olhos, com outra perspectiva, a revelação de espaços até agora protegidos pela redoma da privacidade mas que, pelas circunstâncias em que vivemos, se deixaram esventrar por algumas dezenas de objectivas espalhadas por meio Portugal.
A propósito deste projecto, lembrei-me há dias de uma passagem do filme ‘Repórter Indiscreto’, quando Bárbara Herschey revela a Bernzini nunca terem tirado fotos dentro do seu cabaret: ‘Assim é como o céu. Estão mortos para ver como é cá dentro!’.
O ‘Distância Focal’ tem, entre outros méritos, o de ter aberto as janelas, levantado as persianas para que todos possamos partilhar o mistério de como é o ‘viver dentro’ destes jovens que, com generosidade sua e da família, partilham hoje com todos os cibernautas alguns pedacinhos do seu céu” – constata Bruno Cordeiro, docente do ISMT mas de outra área científica, que se assume como “penetra” do projecto, tendo já uma dezena de fotos publicadas.

O projecto “Distância Focal” passou a integrar o leque de portfolios do regime de avaliação continuada da disciplina de Fotojornalismo, com os alunos comprometidos em alimentar o recurso até ao final da quarentena.